Os segredos de Dabove no Huracán

Dabove na pré-temporada com o Huracán;

Não poderia começar 2023 sem falar do time que mais me aproximei no último ano. O Huracán entrou no meu dia a dia quando contratou Diego Dabove em maio de 2022, que vinha de seu trabalho no Banfield. Trocar o time de Florencio Sola pelo de Parque Patricios foi uma das decisões mais benéficas para a carreira do treinador.

Dabove tem sua alma bilardista maestrada por Miguel Russo e com uma pitada de Gorosito, com quem também trabalhou quando foi treinador de goleiros. Desde sua estreia como técnico principal, comandando o Godoy Cruz em 2018, é apontado como um dos profissionais mais talentosos do atual mercado. Dabove é um dos poucos que se mostra como um camaleão ao se adaptar as adversidades e, por ter um time que domina o propósito do jogo se moldando a cada necessidade.

O treinador bilardista jogo mais direto e não tem medo de arriscar quando precisa. Diego sabe optat por um modelo de criação curta a partir da defesa. Assim, é possível ver desde características para jogar com espaço a jogadores mais prontos para um jogo combativo e de conclusões efetivas. Tem sido assim com o Huracán que terminou em quarto lugar na Liga Argentina 2022. O time não tinha muitas pretenções e acabou conquistando vaga na Fase 2 da Libertadores deste ano.

O Huracán fez uma campanha que colocou Dabove entre os melhores técnicos do ano. El DT soube explorar toda a diversidade nos momentos ofensivos, defensivos e na hora de suas duas transições de bola. Dabove não é um técnico menottista e muito menos apaixonado por posse de bola. Pragmático, ele opta por um sistema tático objetivo geralmente baseado em uma plataforma de 4-3-1-2 vs 4-3-3. Com isso é possível ver um processo ofensivo que pule de sua primeira etapa, de construção, para a criação e diretamente a finalização, sem passar pelo estratégico momento de preparação.

Durante a semana, Dabove tem um método de treinamento que chama atenção e pode ser um dos seus segredos para ser diferenciado dos demais colegas de cargo. Ao mesmo tempo que é um cara reservado, conversa muito com cada jogador. Seus treinos são uma aula e bem definidos para que os setores da equipe exerçam seu papel. Pelas suas mãos, o Huracán tem a resiliência de Dabove se moldando à postura do adversário.

Em um campeonato longo como o argentino – e agora com o desafio da Libertadores; essa é uma grande qualidade que se torna essencial para esse time, junto com a intensidade sempre exigida em campo pelo treinador mais bilardista que vemos hoje. Dabove encontrou no Huracán un território ideal e amplo para fazer seu trabalho como sempre sonhou. Esse casamento dentro de campo ainda vai longe.

Como chega o ‘Scalonismo’ no duelo Menottismo vs Bilardismo?

Tricampeão da Scaloneta vai doutrinar uma nova geração. Foto: YPF

Após 36 anos a Seleção Argentina conquistou o sonhado tricampeonato mundial ao derrotar a França nos pênaltis após uma final épica. O título é a consagração de 26 futebolistas que ficarão na história. Mas também foi a coroação da comissão técnica de Pablo Aimar, Walter Samuel e Roberto Ayala junto a Lionel Scaloni como maestro.

O técnico da ‘Scaloneta’ conquistou um feito que outros consagrados treinadores argentinos como Jose Pékerman, Marcelo Bielsa, Alejandro Sabella não conseguiram. Scaloni inclusive conseguiu uma dobradinha que César Luis Menotti nem Carlos Salvador Bilardo haviam alcançado antes: Sagrou-se campeão da Copa América e da Copa do Mundo.

Depois do título em um Mundial com inúmeras estratégias e jogando todos os jogos com a própria vida desde a derrota para a Arábia Saudita na estreia, onde entrará o legado de Scaloni no famoso duelo entre Menottistas e Bilardista? O estilo dos dois treinadores campeões em 78 e 86 doutrinaram gerações na Argentina.

Agora o sucesso de Scaloni queimou todos os livros de futebol. Um treinador sem nenhuma experiência anterior, se tornou o mais bem sucedido de todos em um Mundial onde gigantes escolas futebolísticas foram caindo. Ele superou duras críticas, algumas inclusive humilhantes por parte de imprensa e colegas de profissão experientes. Mas desde sua chegada no comando foi bancado por Menotti.

Scaloni junto de seus auxiliares com visões amplas montou um grupo vencedor que passará a doutrinar a atual geração, que muito por conta da idade não se identificam tanto com Bilardo e Menotti para serem seus mentores. Scaloni ganhou a confiança do xará Lionel Messi e de seus comandados, algo muito semelhante ao que Bilardo fez com o grupo de Maradona em 86. Isso foi decisivo para começar a construir uma trajetória cheia de glórias em pouco tempo.

O desafio de profe Lionel dentro das quatro linhas é impulsionar seu estilo de jogo, que se adaptou a cada momento que a Argentina encarou as batalhas desde seu primeiro jogo como treinador. No atual campeão do mundo vemos a integração dos dois modelos de jogo, com um toque da raça e da modernidade do futebol fazendo parte da construção de suas ideias. Ser um exemplo como Menotti e Bilardo, que ainda doutrinam técnicos formados em escolas como a Vicente López, vai ser o fator chave para o Scalonismo virar uma doutrina como seus antecessores campeones se tornaram.

O futebol argentino, sempre dividido entre Bilardistas e Menottistas dentro e fora de campo – sendo que uma das escolhas acabam se refletindo em gostos políticos, musicais, literários e até definindo nossas personalidades – agora ganha a terceira vertente. Como será o Scalonismo? Até o momento se mostra diferente, mais intenso e plural nos âmbitos esportivos.

Ao menos tende a ter uma personalidade mais emotiva, simpática e agradável que os Menottistas & Bilardistas fora dos gramados. Se os demais técnicos vão lhe seguir como um exemplo de jogo veremos nos próximos quatro anos. Já fora de campo, especialmente para a geração TikToker que não segue a doutrina dos campeões de 78 e 86, encontram dessa vez um comandante que os guiarão na Scaloneta, quebrando regras e lógicas desenhadas por moralistas chatos. Peguem seus fernet’s e sigam apostos na nova era do futebol porteño!

Heinze tem alma do Newell’s, mas continua excêntrico

O começo da ‘Era Heinze’ (Foto: NOB)

Em busca de um treinador com estilo mais característico de Marcelo Bielsa, o Newell’s Old Boys conseguiu colocar em seu comando Gabriel Heinze. O técnico de 44 anos é o que mais se diferencia no atual mercado argentino dos nomes que estavam à disposição e pode cair como uma luva no clube rosarino, no cenário otimista.

Perfeccionista, metódico e de temperamento explosivo, Heinze tem uma metodologia única de trabalho e não permite interferências nas suas ideias. Ele gosta de ter o controle dos ambientes em que está inserido e valoriza o jogo ofensivo e de intensidade nos times que treina. Muito por isso não deu certo na MLS em sua temporada com o Atlanta United.

No entanto, seus trabalhos no Argentinos Juniors e no Vélez (esse o mais consistente), deram respaldo para Heinze mostrar que é um dos treinadores mais promissores da atualidade. Foi no Vélez, time de DNA bianchista, que Gabriel Heinze conseguiu apresentar seu lado mais bielsista. Para alguns críticos ele é rude e obsessivo. Outros preferem aplaudir sua personalidade forte.

Seu jeito excêntrico de ser se reflete no estilo de jogo que gosta. Não tem medo de ousar e arriscar. Dentro as 4 linhas comanda o time se adaptando ao adversário e preza pela ofensividade acima de tudo. Fora do banco, nos bastidores, tem atitudes engraçadas como uma vez em que desceu do ônibus do time e foi de táxi ao hotel quando viu o dirigente que ele não gostava dentro do veículo da equipe depois de jogar pelo Campeonato Argentino.

Outra de suas manias é limitar celulares e videogames nas concentrações, vigiar o peso dos jogadores de maneira obsessiva e implicar com quem usava chuteira desamarrada no vestiário. No Vélez, Heinze fez coisas que Bielsa aprovaria. Ele praticamente dormiu no CT, seguiu de perto as categorias de base e comprou briga até pelos colchões que eram usados por meninos da cantera exigindo melhores condições nas instalções do clube.

Trabalhar com Heinze exigie paciência, uma disciplina impecável e jogo de cintura. O Newell’s conhece seus caprichos e apostou no projeto do treinador. Para a próxima temporada está garantida um diário de boas histórias para contar no dia a dia do clube. No reduto que tem Bielsa como ídolo, agora conta com um verdadeiro discípulo dele estará à beira do gramado. A nova «Era Heinze» ainda não tem garantias de um final feliz. O caminho, ao menos, está sendo traçado.

Ibarra bianchista? O que esperar do Boca em 2023

Após ter tido covid-19, Ibarra voltou nesta semana a treinar o time na pré-temporada. Foto: Boca Jrs

Com resultados não muito expressivos, mas somando pontos necessários, o título nacional do Boca Juniors em 2022 teve muito da essência de Hugo Ibarra. O técnico de 48 anos assumiu o comando do time xeneize depois da saída de Sebastián Battaglia, assim que foi elimidado da Libertadores para o Corinthians.

Ibarra assumiu o time encarando logo um clássico contra o San Lorenzo na Liga Argentina. O que era para ser um trabalho interino acabou sendo definitivo. O novo treinador, literalmente, seguiu até o fim da temporada levando o Boca à 35ª conquista da taça argentina. Seu time não encantou, mas foi aquilo que sabe ser desde sempre: Copero!

No balanço positivo de seu primeiro semestre de Boca Jrs, Ibarra terminou a temporada com 13 vitórias, 4 empates e 4 derrotas. Mas sobretudo, com o seu primeiro título como treinador que o respaldou para seguir no comando em 2023. E o que esperar de seus próximos passos?

Hugo deu indícios de ser um biachista à beira do gramado, por conta da influência de Carlos Bianchi – seu técnico no Boca Jrs – no estilo de jogo que aplica. Até mesmo nos treinos ele tem mesmo método de Bianchi. A prática consiste em treinos formais, na La Bombonera, com a grama molhada simulando uma partida oficial.

Esses treinamentos serão realizados semanalmente sob os olhares de Ibarra para que os jogadores se acostumem a jogar em qualquer circunstância. Também faz divisões de setores durante a semana nos treinos. Além disso, ele tem uma mania que chama atenção: Durante os jogos coloca sua garrafinha de água sempre do lado onde o Boca está atacando.

Ele tem se mostrado um técnico estrategista, não muito agitado e observador. Passa a maior parte dos 90 minutos levantando do banco e assistindo tudo com as mãos no bolso ou passando instruções ao seus jogadores. Ao longo do jogo recebe orientações de seus auxiliares e analisa seu tablet cheio de anotações.

Com um olhar sereno, postura confiante e ao mesmo tempo misterioso, Ibarra busca se encontrar como treinador em um grande desafio que terá pela frente. Sua prova de fogo para 2023 é a Libertadores. O Boca completará 16 anos desde sua última da América, que veio através do bilardista Miguel Russo. Ibarra terá que usar seu lado bianchista muito além dos treinos caso queira ter uma temporada mais brilhante que seus seis primeiros meses de batalhas xeneizes.

Contudo, ter a confiança dos jogadores e da torcida que mais pressiona na Argentina também vai ser essencial para Ibarra. Bianchi foi mestre como ninguém nisso. Observando o legado do mestre, Hugo pode ter a fórmula para lidar com o atual Boca. Levando em conta seu perfil, tem tudo pra dar certo mesmo quando enfrentar turbulências.

Demichelis e River vão descobrir juntos novo caminho

O anúncio da despedida de Marcelo Gallardo um dia iria chegar. E o River Plate sabia que escolher de um substituto del Muñeco não seria nada fácil. Com um legado irreparável no clube dobrando o número de Libertadores dos millonarios, conquistou uma vitória para a eternidade em Madrid diante do maior rival.

Qualquer opção que viesse não teria o peso de Gallardo. Mas a identificação com o River era no mínimo necessária. Foi assim a escolha por Martín Demichelis. O ex-zagueiro iniciou sua carreira no River Plate na canteira do clube em 1997, quando ainda tinha 16 anos. O jovem compôs uma das gerações de promessas mais badaladas da história do Monumental e conquistou por duas vezes o Campeonato Argentino.

Martín atraiu o interesse do Bayern de Munique e arrumou as malas para a Alemanha em 2003. Seria uma figura constante no clube, a ponto de completar sete temporadas na Baviera. Ainda teria momentos dignos no final de carreira, sobretudo ao acompanhar Manuel Pellegrini, seu mestre nos tempos de River. Brilhou no Málaga e depois disputou três temporadas com o Manchester City, antes de passar pelo Espanyol. Foi titular da Argentina na Copa de 2010 e na reta final da Copa de 2014.

Entre 2016&17, Demichelis retornou ao Málaga para pendurar as chuteiras e iniciar sua história como assistente técnico. Mas seu grande impulso na nova profissão veio do próprio Bayern em 2019. O argentino assumiu as categorias de base do clube alemão onde permaneceu por três anos. Foram 35 vitórias em 58 jogos, com um aproveitamento de 67% dos pontos.

Com a chegada de Demichelis, o River Plate aponta seu intuito de aproveitar as categorias de base e começar um novo ciclo depois da gloriosa «Era Gallardo». Ao mesmo tempo que o River tenta encontrar um novo caminho, ainda precisará encontrar o perfil ideal de Demichelis que vem carregado pela escola alemã de futebol. Gallardo tinha um estilo de jogo mais agressivo, que inclusive se adaptou conforme os diferentes momentos de sua gestão no time millonario.

O novo DT precisa ter esse compromisso com o estilo de jogo do River e sempre de olho em sua base, como geralmente reza a cartilha de Núñez. A pressão de ser sucessor de Gallardo é enorme, ainda mais para Martín que chega como um novato na profissão. Mas apesar da pouca experiência, o River Plate ofereceu garantias relativamente longas a Demichelis para fazer seu trabalho.

O novo treinador assinou seu contrato até dezembro de 2025, com três anos de duração. Segundo o La Nación (ARG), o novo treinador era o nome de maior consenso entre os dirigentes do clube e recebia a benção de Enzo Francescoli, ídolo e homem forte nas decisões do River. Seu perfil é o que mais se casa com o que o River desejava, se asemelhando com Pablo Aimar – que também era cotado para o cargo.

Demi, especialmente pela gestão de elenco e pela liderança expressa desde os tempos de jogador, está no caminho certo. E junto com o River vai traçar um novo destino em 2023, ao lado de seus auxiliares Pinola e Germán Lux, formados na renomada escola Vicente López.

Liga Argentina 2023 terá apenas dois técnicos estrangeiros

Martín Palermo vai comandar o Platense a partir de janeiro. Foto: Clarín Deportes

Os clubes porteños já estão fechados com seus treinadores para a próxima temporada. Em 2023 a Liga Argentina vai contar com 26 treinadores argentinos em seus 28 times na primeira divisão.

Somente dois uruguaios fazem parte da lista de estrangeiros. Os treinadores do campeonato argentino para o ano que vem são:

1. Hugo Ibarra 🇦🇷 – Boca Juniors

2. Martín Demichelis 🇦🇷 – River Plate

3. Abel Balbo 🇦🇷 – Estudiantes LP

4. Gorosito 🇦🇷 – Gimnasia LP

5. Miguel Russo 🇦🇷 – Rosario Central

6. Fernando Gago 🇦🇷 – Racing

7. Rubén Insua 🇦🇷 – San Lorenzo

8. Diego Dabove 🇦🇷 – Huracán

9. Javier Gandolfi 🇦🇷🇲🇽 – Talleres

10. Frank Kudelka 🇦🇷 – Lanús

11. Gabriel Milito 🇦🇷 – Argentinos Jrs

12. Julio Vaccari 🇦🇷 – Defensa y Justicia

13. Lucas Pusineri 🇦🇷 – Atl. Tucumán

14. Gabriel Heinze 🇦🇷 – Newell’s OB

15. Martín Palermo 🇦🇷 – Platense

16. D. Martínez 🇦🇷 – Tigre

17. L. Stillitano🇦🇷 – Independiente

18. Sanguinetti 🇦🇷 – Banfield

19. A. Medina 🇦🇷 – Vélez S.

20. Moncho» Ruíz e Luca Marcogiuseppe 🇦🇷 – Arsenal

21. Israel Damonte 🇦🇷 – Sarmiento

22. Gustavo Munúa 🇺🇾 – Unión

23. L. Madelón 🇦🇷 – Central Córdoba

24. Diego Flores 🇦🇷 – Godoy Cruz

25. Guillermo Farré 🇦🇷 – Belgrano

26. Lucas Bovaglio 🇦🇷 – Instituto Córdoba

27. M. Saralegui 🇺🇾 – Colón de Santa Fe

28. R. De Paoli 🇦🇷 – Barracas Central

Com vertentes Menottistas, Lucas Pusineri é a surpresa de 2022

O técnico que mais surpreendeu na Argentina em 2022 foi Lucas Pusineri. Ele assumiu o Tucumán em abril deste ano para substituir Juan Manuel Azconzabal. Embora a escolha por Pusineri tenha surpreendido os torcedores e uma boa porcentagem não gostou, ele calou os críticos.

«Vai durar três jogos», «Não deve conhecer nenhum jogador da equipe», «Ganhou alguma coisa pra tá ali?», foram algumas frases lidas nas redes sociais. O novo DT do Tucumán passou um bom tempo longe dos gramados após trabalhar no Independiente. A pesar de seus números não serem tão ruins, saiu pela porta dos fundos de Villa Domínico (CT do time Rojo).

A carreira de Lucas Pusineri teve protagonismo nos times colombianos Cúcuta Deportivo (campeão da série B sb seu comando) e do Deportivo Cali. Sua chegada no Tucumán teve como objetivo inicial tirar o clube da difícil situação que era tão profunda sendo assombrada pelo fantasma do rebaixamento.

A equipe adaptou-se à ideia do treinador e conseguiu bons resultados rápidos chegando a ser líder da Liga Argentina por uma sequência de rodadas. Seguindo a tradição de treinadores argentinos que se destacam no futebol precocemente, Pusineri fez uma temporada de grande evolução técnica para seus próximos passos.

Pusineri começou como auxiliar técnico de Claudio Borghi no Argentinos Jrs, em 2013. De 2015 a 2017, decidiu aperfeiçoar sua visão futebolística para se tornar um efetivo técnico que promete ser um dos mais atuantes da nova geração que aparece no mercado. Desde que assumiu times como principal técnico, Pusineri apresentou um estilo de predominância ofensiva, com transições rápidas e mobilidade no campo adversário.

Pusineri utiliza muito o 4-2-3-1 para conseguir compor suas ideias que caracterizam muito a essência reativa da equipe. Num jogo de transições com maior intensidade e imposição, atuando dentro de seus domínios, sabendo usar bem do “fator casa” e o aliar com sua notável organização tática dentro das quatro linhas.

O técnico possui ideias menottistas, com linhas lavolpianas para moldar seu estilo e crescer cada vez mais no cenário sul-americano.

Bianchi no Boca vs Gallardo no River – Quem foi maior?

Uma discussão divide novamente a Argentina como na década de 80 entre ‘menottistas’ e ‘bilardistas’. Desde os clássicos ocorridos nas duas últimas edições da Libertadores da América, Boca Juniors e River Plate geraram um debate entorno das duas grandes figuras que comandaram os gigantes do país hermano: Carlos Bianchi ou Marcelo Gallardo, quem é o melhor? O “River de Gallardo venceria o Boca de Bianchi?” ou “Gallardo conquistará mais Libertadores que Bianchi?” são alguns dos diversos questionamentos.

Todavia não cabe comparações à risca. Mas é reconhecível que ambos são os maiores técnicos que passaram pelos rivais de Buenos Aires na história. O treinador mais vitorioso do River, aos 46 anos e o mais vitorioso do Boca, hoje com 73 anos, emplacaram com suas visões de jogo que estampam as glórias dos principais times do futebol argentino.

Um ponto em comum entre ‘el Muñeco’ e ‘el Virrey’ são suas passagens pelo futebol francês. Bianchi se destacou como artilheiro jogando nos clubes PSG, Strasbourg e Reims, último time a defender como atleta e onde deu início a sua trajetória como treinador fim dos anos 80. Gallardo também jogou no futebol francês ao defender o Monaco (onde conviveu com Didier Deschamps, atual técnico campeão do mundo) e teve passagem pelo PSG.

Gallardo como técnico ainda não teve experiências europeias, já que iniciou sua carreira no comando de uma equipe em 2011, com o Nacional (URU) assim que havia se retirado como jogador. Logo na temporada que comandou o time conquistou o título do campeonato uruguaio. O ídolo do River chega ao cargo de técnico no ‘milionário’ em 2014, quando inicia o trabalho de transformação de um time recém rebaixado para a volta por cima e conquistas de novos recordes no continente. Já Bianchi se despediu do futebol francês como técnico para chegar ao Vélez, primeiro time argentino que treinou. Chegando ao clube em 93, logo levou a equipe pela primeira vez à conquista da Libertadores no ano de 94, sobre o São Paulo na decisão. Bianchi começa sua era gloriosa no Boca em 98, comandando o clube até 2001. Voltou ao final de 2002 e permaneceu até 2004. Teve uma última passagem, sem títulos, de 2012 a 2014.

Dentro do River, Gallardo foi visto como um técnico que fez seu time jogar de muitas maneiras diferentes – desde o ataque total até o limite da violência. Enquanto no Boca, Bianchi é visto, até pela própria torcida, como um técnico retranqueiro que amarrava a equipe ao redor do travessão e que contava com as vitórias nas decisões por pênaltis. Jogando no método ‘bianchista’ que o time xeneize conquistou três Libertadores e dois Mundiais – o de 2003, quando o Boca de Tevez derrotou o Milan de Cafu e Maldini nos pênaltis. ‘Virrey’ deu ao Boca o total de três Libertadores (2000, 2001, 2003) e soma 9 títulos, incluindo conquistas nacionais no período em que treinou o clube.

Já Gallardo não alcançou a conquista de Mundiais, mas seus feitos em oito anos de River Plate o fazem estar na mesma prateleira que Bianchi por ter alcançado dez títulos com o clube. Os principais feitos de ‘Muñeco’ foram duas Libertadores (2015-2018) e três conquistas da Recopa (2015, 2016, 2019), iniciando sua conquista de títulos internacionais com a Sul-americana de 2014.

Em relação às posturas no campo, nitidamente o Boca de Bianchi foi mais ‘cascudo’ e não media esforços para levar vantagens nas disputas. A equipe contava com R. Schiavi, J. Bermúdez, Martín Palermo e Juan R. Riquelme para bater de frente com grandes times do continente e até do mundo, se posicionando com uma marcação mais ferrenha e arriscando perigosos contra-ataques. Enquanto o River de Gallardo, com Pisculichi e Teo Gutiérrez (2015) a Pity Martínez e Rafael Borré (2018), possui um modelo mais refinado e troca de passes precisos quando está em campo.

Taticamente, o River jogou muito com o modelo 4-3-1-2. Quando o time montava suas jogadas, o esquema se transformava em um espaço ocupado pelos jogadores do meio-campo com mecanismos para criar espaços e construir jogadas pelo chão, trabalhando a posse de bola e com os atacantes avançados. Este River pode ser um retrato mais moderno do estilo de Menotti na seleção argentina de 78, por exemplo. Já o Boca atuava no 4-4-2, que colocava o time com característica de rápido ataque e, principalmente, com movimentações dinâmicas. Não existia um ponta fixo, mas sim a troca constante de posicionamento dentro da partida, próximo ao estilo bilardista.

No contexto das comparações, Bianchi já se aposentou e deixou seu legado invejável que pode ser visto pelos corredores de La Bombonera. Gallardo deixou a sala de troféus do Monumental de Nuñez mais recheada em sua era. E tanto Bianchi quanto Gallardo são exaltados pelos argentinos de maneira quase unânime. Ainda quando estava no Boca, Bianchi era o sonho de consumo da seleção. Gallardo hoje é o nome que a albiceleste deseja, mas assim como o rival, pode seguir longe do plantel por enquanto. Os rumos da carreira de Marcelo pode ser o futebol europeu.

Bianchi ficou para a história como uma lenda e seus capítulos escritos estão encerrados. Gallardo tem um caminho longo e triunfante para trilhar. Até o momento, ‘el Virrey’ ainda é melhor para muitos – especialmente pelo encantamento que causa devido a sua forte personalidade. Mas Gallardo pode superá-lo com seus trejeitos extracampo que fazem a diferença nos reflexos de seu exitoso trabalho. A pergunta dos argentinos não deveria ser “quem é o melhor”, mas sim, “quem será o maior”, pois a história ainda está sendo escrita, dentro e fora dos gramados.

Gallardo deixou o River sendo idolatrado pela torcida. Em seus últimos jogos, até autógrafo dava em braços para serem tatuados. Seu legado no River vai desde a postura dos funcionários até a forma como os gandulas atuavam em campo. Em cada canto do River Camp, CT do clube, é nítido todos os ensinamentos da escola Gallardista que pode doutrinar as próximas gerações. Enquanto no Boca, a herança de Bianchi foi copera e vencer custe o que custar.

Tem quem prefira respirar o futebol por si só. Outros preferem o gosto da vitória independente de seu preço. Assim seguem River e Boca no tango Gallardista & Bianchista!