Menotti vs Bilardo: Raízes do futebol argentino

Menotti (1974) | Bilardo (1986)

A base da escola argentina de treinadores nasceu pela propagação de dois estilos bem diferentes que moldaram o futebol argentino e que polarizou intensamente a forma como a Argentina vivia o futebol nas décadas de 70 e 80.

Era uma disputa entre duas concepções distintas de como tratar o futebol dentro e fora de campo. E ambas ideias receberam justamente o nome dos defensores do estilo futebolístico. O primeiro é César Luis Menotti, campeão mundial pela seleção argentina em 1978. O outro é Carlos Bilardo, que conquistou o título com a equipe ‘albiceleste‘ em 1986. Portanto, trata-se dos dois DTs (diretores técnicos) comandantes que levaram a Argentina ao topo do mundo.

A forma mais simples de expor as visões futebolísticas de ambos é comparar os trabalhos mais lembrados dos dois treinadores justamente nas seleções campeãs mundiais. A seleção argentina de 78 tinha um estilo de jogo muito tradicional, dentro dos padrões clássicos do futebol argentino. Destaque para a sólida linha de quatro defensores, com um lateral – que na verdade era tecnicamente um zagueiro pelo lado (Olguín) e outro com maior liberdade ofensiva (Tarantini). Em seguida, um volante com funções mais defensivas (Gallego) e um armador peça essencial da equipe (Ardiles) compunham com o terceiro homem de meio de campo ofensivo, Mario Kempes, a base ‘menottista’ da Argentina. A seleção usava dois ponteiros tradicionais (Bertoni e Houseman / ou Ortiz) e um centroavante fixo (Luque), formando um desenho tático quase no 4-2-4, sistema muito usado no futebol sul-americano nos anos 1960.

Já em 86, a albiceleste surpreendeu com seu 3-5-2 (que na prática funcionava como 3-4-1-2), sistema este que seria copiado por muitas seleções nos anos seguintes além de muitos clubes pela América. O ‘bilardismo’ trabalhava com três zagueiros (Cuciuffo, Ruggeri e Brown), tendo uma segunda linha com quatro volantes (Batista, Giusti, Enrique e Olarticochea). Burruchaga atuava à frente dessa linha de volantes, onde tinha também considerável papel na marcação além da interligação entre setores. No ataque, jogavam o artilheiro Valdano e um tal de Diego Maradona, que inclusive não era nesse sistema um atacante clássico. Ele atuava à frente mas com frequência recuava para armar o jogo como engatando importantes jogadas.

Mas o que fez desses dois técnicos figuras determinantes no futebol não foi só a distribuição dos jogadores na prancheta, e sim a filosofia de jogo. A seleção de 78 gostava de ter a bola no pé, não só pela posse, mas pela leitura de aproveitamento do jogo. O futebol clássico argentino tinha essa característica como base, resultando em jogadores com toque de bola bem refinado. O time de Menotti tocava a bola e partia para a ofensividade contra o adversário. Não era “tik-taka’’. Os gols da seleção albiceleste naquele mundial nasceram em grande parte de jogadas trabalhadas dessa maneira, com a bola passando de pé em pé.

Enquanto o time de Bilardo tinha outra característica. Aquela equipe se sentia melhor atuando mais atrás, esperando o adversário e matando o jogo em contra-ataques fulminantes. Marcação mais forte e ataques mais velozes davam o tom. Salvo os gols nascidos de jogadas individuais de Maradona, os gols daquele time eram geralmente marcados em contra-ataques – como os feitos por Valdano e Burruchaga na decisão.

Contudo, a discussão entre esses dois estilos de jogo mexeu muito com os argentinos na época dos anos 80 por ter aparecido misturada com outros debates sobre visões de mundo (como romantismo vs utilitarismo), política partidária (peronismo vs anti-peronismo) e projetos para o país (nacionalismo vs globalização), que vivia o contexto de redemocratização. Após anos de uma sangrenta ditadura, finalmente se podia falar de tudo e era o momento de reconstruir a Argentina. Foi ali que o argentino ergueu a cabeça e se tornou pragmático como vemos hoje. E também foi naquela época que nasceram novos estilos que reformularam o futebol, que contamos ao longo do caminho por “acá”.

O futebol sul-americano ganhava assim novas formas e aparecia para o mundo de uma maneira icônica através de Menotti e Bilardo, que tiveram passagens por clubes e seleções fora da Argentina. Propagando suas manias e personalidades incontestáveis, ambos escreveram um dos capítulos mais ricos da tática do mundo da bola. Eles nunca brigaram, nem se enfrentaram como treinadores.

Em campo só se viram uma vez quando ainda eram jogadores na partida Boca Jrs x Estudiantes onde Menotti e Bilardo respectivamente atuaram como jogadores. Eles discordam sobre a maneira de ver o futebol, discordam politicamente, mas o respeito sempre prevaleceu. Acima de tudo, sabem que foram os «pais» dos treinadores argentinos que se construíram como maestros sob a personalidade e o estilo tático de ambos campeões mundiais pela Argentina.

No futebol argentino, torcedores, jornalistas, times e treinadores se dividem entre «Menottistas» e «Bilardistas»; que deram origem ao «Bielsismo», «Bianchismo», «Sabellismo», «La Volpismo»; dentre outros treinadores que deixam seu legado nos gramados. É uma maneira poética de definir o que realmente representa o futebol argentino na vida de cada um.

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