Não basta contratar treinador estrangeiro

Foto: Lance!

Com as temporadas pela América chegando ao fim, começam as negociações do mercado da bola. Dessa vez, os mais cobiçados para serem as grandes contratações não são necessariamente jogadores, mas sim, os treinadores que estão se destacando no comando das equipes fora do Brasil.

Após o sucesso das campanhas de Jorge Jesus e Jorge Sampaoli em 2019, muitos acreditaram que os times brasileiros precisavam encontrar a solução para o banco da equipe no futebol do outro lado da fronteira. Mas não basta contratar um técnico simplesmente por ser de outra nacionalidade esperando que este seja o milagre a ser feito. É preciso abrir as portas do clube para uma nova leitura de jogo e um estilo peculiar de viver o mundo da bola.

Sabe-se que uma das escolas mais tradicionais em formar e lançar técnicos talentosos ao futebol sul-americano é a Argentina. O divisor de águas dos modelos táticos e da leitura de jogo no país hermano aconteceu com os trabalhos feitos por Cesar Luis Menotti e Carlos Salvador Bilardo, ambos campeões com a seleção albiceleste em 78 e 86, respectivamente. Na base desses trabalhos está a fonte vinda da revolucionária seleção holandesa de 74.

Na sequência dessa era, abriu-se espaço para novos nomes que hoje são referência no futebol mundo a fora. Com estilos, ideias diversas e métodos particulares, o que fez o futebol argentino se tornar um celeiro de treinadores qualificados foi a possibilidade de trabalhar com tempo, inteligência, paciência e intensidade. Da mesma forma em que um clube não apenas contratava um treinador, mas sim, um conjunto de ideias e inovações. E essa reunião de quesitos técnicos não se mede do dia pra noite, é a característica de cada treinador construída ao longo das temporadas vividas. 

O treino, o pré e o pós jogo do futebol não são uma ciência exata, pois cada técnico tem seus métodos para alcançar os resultados. Além disso, cada comandante de uma equipe precisa saber lidar individualmente com jogadores de perfis distintos, os jovens que tem a fome de crescer e os medalhões, que já experientes tem cabeça formada para bater de frente com qualquer um. Conseguir o sucesso em um futebol moderno e competitivo depende de um criativo treinador e um esforçado jogador. Não basta ser bom taticamente, mudando apenas na prancheta seu posicionamento em campo. O grande treinador precisa ir muito além do treino, dos 90 minutos e do vestiário. Assim como o jogador, especialmente.

É preciso viver o futebol 24 horas por dia, estudando o que funcionou e entendendo o que errou para consertar. Mais do que enxergar o próprio time, é preciso conhecer profundamente o adversário. E a sintonia da equipe com o treinador é parte essencial nesse quesito. Mesmo que se fale outro idioma, a linguagem da bola é universal. 

Enquanto torcedores e dirigentes mandarem aquela frase: “Me fala aí um treinador bom pro meu time!”, para ele apenas assinar um papel e meses depois ser mandado embora por apenas não somar pontos numa tabela, nada irá mudar. Não vale contratar um estrangeiro achando que esse será a solução para tudo. O clube, o jogador e a torcida que corneta precisam estar dispostos a entenderem as ideias que fazem a dinâmica deste comandante funcionar. Com isso, elas podem ser aplicadas e os resultados chegarem assim que esse conjunto se moldar, colhendo os frutos tanto a curto quanto a longo prazo.

Muitos clubes abrem mão de treinadores que podem revolucionar seu futebol e entrar para a história do clube por achar que “exigências” demais não compensam o valor. Fora o imediatismo que vem a frente dos projetos propostos, impedindo assim o alcançe do resultado desejado. Isso parte tanto do vestiário – quando não se joga mais para o treinador – quanto da diretoria insatisfeita que pressiona.

Manter o estilo de trabalho dentro de um time brasileiro por muitas temporadas ainda é raro. E uma hora esses raros exemplos também se tornam questionáveis após saturarem seus métodos. Claro que muitos fatores dentro e principalmente fora de campo contribuem para isso. A fórmula exata não existe, pois ela se molda nas diversas leituras de jogo que existem, sendo menottista, bilardista, bielsista, cruyffista ou bianchista. Esses e outros estilos que desenham o futebol precisam primeiramente terem livre arbítrio para transitarem nos times brasileiros através de um trabalho continuo e essencial pelas mãos dos treinadores que chegarem. Caso contrário, ficarão apenas na teoria e a dança das cadeiras de mês em mês será infinita.

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