Bianchi no Boca vs Gallardo no River – Quem foi maior?

Uma discussão divide novamente a Argentina como na década de 80 entre ‘menottistas’ e ‘bilardistas’. Desde os clássicos ocorridos nas duas últimas edições da Libertadores da América, Boca Juniors e River Plate geraram um debate entorno das duas grandes figuras que comandaram os gigantes do país hermano: Carlos Bianchi ou Marcelo Gallardo, quem é o melhor? O “River de Gallardo venceria o Boca de Bianchi?” ou “Gallardo conquistará mais Libertadores que Bianchi?” são alguns dos diversos questionamentos.

Todavia não cabe comparações à risca. Mas é reconhecível que ambos são os maiores técnicos que passaram pelos rivais de Buenos Aires na história. O treinador mais vitorioso do River, aos 46 anos e o mais vitorioso do Boca, hoje com 73 anos, emplacaram com suas visões de jogo que estampam as glórias dos principais times do futebol argentino.

Um ponto em comum entre ‘el Muñeco’ e ‘el Virrey’ são suas passagens pelo futebol francês. Bianchi se destacou como artilheiro jogando nos clubes PSG, Strasbourg e Reims, último time a defender como atleta e onde deu início a sua trajetória como treinador fim dos anos 80. Gallardo também jogou no futebol francês ao defender o Monaco (onde conviveu com Didier Deschamps, atual técnico campeão do mundo) e teve passagem pelo PSG.

Gallardo como técnico ainda não teve experiências europeias, já que iniciou sua carreira no comando de uma equipe em 2011, com o Nacional (URU) assim que havia se retirado como jogador. Logo na temporada que comandou o time conquistou o título do campeonato uruguaio. O ídolo do River chega ao cargo de técnico no ‘milionário’ em 2014, quando inicia o trabalho de transformação de um time recém rebaixado para a volta por cima e conquistas de novos recordes no continente. Já Bianchi se despediu do futebol francês como técnico para chegar ao Vélez, primeiro time argentino que treinou. Chegando ao clube em 93, logo levou a equipe pela primeira vez à conquista da Libertadores no ano de 94, sobre o São Paulo na decisão. Bianchi começa sua era gloriosa no Boca em 98, comandando o clube até 2001. Voltou ao final de 2002 e permaneceu até 2004. Teve uma última passagem, sem títulos, de 2012 a 2014.

Dentro do River, Gallardo foi visto como um técnico que fez seu time jogar de muitas maneiras diferentes – desde o ataque total até o limite da violência. Enquanto no Boca, Bianchi é visto, até pela própria torcida, como um técnico retranqueiro que amarrava a equipe ao redor do travessão e que contava com as vitórias nas decisões por pênaltis. Jogando no método ‘bianchista’ que o time xeneize conquistou três Libertadores e dois Mundiais – o de 2003, quando o Boca de Tevez derrotou o Milan de Cafu e Maldini nos pênaltis. ‘Virrey’ deu ao Boca o total de três Libertadores (2000, 2001, 2003) e soma 9 títulos, incluindo conquistas nacionais no período em que treinou o clube.

Já Gallardo não alcançou a conquista de Mundiais, mas seus feitos em oito anos de River Plate o fazem estar na mesma prateleira que Bianchi por ter alcançado dez títulos com o clube. Os principais feitos de ‘Muñeco’ foram duas Libertadores (2015-2018) e três conquistas da Recopa (2015, 2016, 2019), iniciando sua conquista de títulos internacionais com a Sul-americana de 2014.

Em relação às posturas no campo, nitidamente o Boca de Bianchi foi mais ‘cascudo’ e não media esforços para levar vantagens nas disputas. A equipe contava com R. Schiavi, J. Bermúdez, Martín Palermo e Juan R. Riquelme para bater de frente com grandes times do continente e até do mundo, se posicionando com uma marcação mais ferrenha e arriscando perigosos contra-ataques. Enquanto o River de Gallardo, com Pisculichi e Teo Gutiérrez (2015) a Pity Martínez e Rafael Borré (2018), possui um modelo mais refinado e troca de passes precisos quando está em campo.

Taticamente, o River jogou muito com o modelo 4-3-1-2. Quando o time montava suas jogadas, o esquema se transformava em um espaço ocupado pelos jogadores do meio-campo com mecanismos para criar espaços e construir jogadas pelo chão, trabalhando a posse de bola e com os atacantes avançados. Este River pode ser um retrato mais moderno do estilo de Menotti na seleção argentina de 78, por exemplo. Já o Boca atuava no 4-4-2, que colocava o time com característica de rápido ataque e, principalmente, com movimentações dinâmicas. Não existia um ponta fixo, mas sim a troca constante de posicionamento dentro da partida, próximo ao estilo bilardista.

No contexto das comparações, Bianchi já se aposentou e deixou seu legado invejável que pode ser visto pelos corredores de La Bombonera. Gallardo deixou a sala de troféus do Monumental de Nuñez mais recheada em sua era. E tanto Bianchi quanto Gallardo são exaltados pelos argentinos de maneira quase unânime. Ainda quando estava no Boca, Bianchi era o sonho de consumo da seleção. Gallardo hoje é o nome que a albiceleste deseja, mas assim como o rival, pode seguir longe do plantel por enquanto. Os rumos da carreira de Marcelo pode ser o futebol europeu.

Bianchi ficou para a história como uma lenda e seus capítulos escritos estão encerrados. Gallardo tem um caminho longo e triunfante para trilhar. Até o momento, ‘el Virrey’ ainda é melhor para muitos – especialmente pelo encantamento que causa devido a sua forte personalidade. Mas Gallardo pode superá-lo com seus trejeitos extracampo que fazem a diferença nos reflexos de seu exitoso trabalho. A pergunta dos argentinos não deveria ser “quem é o melhor”, mas sim, “quem será o maior”, pois a história ainda está sendo escrita, dentro e fora dos gramados.

Gallardo deixou o River sendo idolatrado pela torcida. Em seus últimos jogos, até autógrafo dava em braços para serem tatuados. Seu legado no River vai desde a postura dos funcionários até a forma como os gandulas atuavam em campo. Em cada canto do River Camp, CT do clube, é nítido todos os ensinamentos da escola Gallardista que pode doutrinar as próximas gerações. Enquanto no Boca, a herança de Bianchi foi copera e vencer custe o que custar.

Tem quem prefira respirar o futebol por si só. Outros preferem o gosto da vitória independente de seu preço. Assim seguem River e Boca no tango Gallardista & Bianchista!

Deja un comentario